terça-feira, 5 de maio de 2026

Todo dia 5 da manhã

 

Matinas do Servo e da Besta

À quinta hora, quando o céu inda é bruma,
(Cinco da aurora, em névoa e desalento)
Desperta a besta e, em lânguida espessura,
Convoca-me ao dever do sofrimento.

“Tem paz, meu filho”, rogo à fria altura,
“Ainda dorme o mundo em seu alento”;
Mas não conhece o tempo a criatura,
Só vísceras e urgência em movimento.

Ergo-me, então, do leito penitente,
E sigo-a ao campo úmido e deserto;
A relva, em pranto, beija-me o presente,
E a alma em mim se encharca em concerto.

🎵

E parte altivo, herói de curto passo,
Rumo ao orvalho e à sua liturgia.
E eis que, no campo, em círculo divino,
Fareja e gira em rito consagrado;

Repete o gesto, lento e peregrino,
Como a buscar um signo revelado.
E eu, em sandálias, ao frio já menino,
Com ossos em que o inverno é entronizado.

Clamo ao céu, de cansaço já inclinado:
“Escolhe, ó ser, teu sítio cristalino,
E verte ao chão teu fardo delicado!”
(eufemismo do destino que o conduz…)

🎵

Porém a besta, em cálculo felino,
Delonga o ato, altiva e vagarosa;
Até que, enfim, cumpre o rito matutino,
Obra discreta, grave e vaporosa.

E volta o olhar, sereno e soberano,
Sem pejo algum, com glória silenciosa,
Como a dizer, num tom quase humano:
“Para isto existes — recolha minha bosta.”