Estava eu lá, e ele lá. Em completo silêncio (vocês verão o Porquê ainda neste texto). Quando de repente, ele vira para mim e solta:
-
BORBOLETA.
Ele fala, e olha para mim, como se eu tivesse que completar. Obviamente, procuro ao redor. Olho para ver se ele apontou algo. Mas não... Ele simplesmente soltou a palavra "Borboleta".
- O que tem?
- Como "assim o que tem"? - revolta-se ele.
Ele está
estranhando o meu "
O que tem" seguido dum seco "
Borboleta"?
Para ser justo: "
Borboleta" não foi o que ele disse. Foi um assunto aleatório, espontâneo e igualmente inconclusivo, não necessariamente o inseto alado metamorfoseado de uma lagarta. Substitui apenas para preservar
nomes e eventos.
- Você falou "Borboleta" e só! - tento retrucar
- Para bom entendedor, isso basta!
Creio que estamos deixando o campo da gramática e da hermenêutica, e adentrando na física quântica.
- Bem, eu não sei. Preciso de mais subsídios para saber do que está falando. Tem uma borboleta aqui? Você tem medo de uma borboleta? Você
queria ser uma borboleta?
- Você NUNCA sabe de nada! - fala triunfante.
Sim, é o TRIUNFO que ele busca. Mostrar que eu não sou culto o suficiente. Uma vitória quase tão gratuita quanto começar um diálogo com "
Borboleta".
- Certo... E o que quer dizer "BORBOLETA"!
-
Bah! Como ainda não sabe?!? Esta geração está perdida mesmo! A poluição está corroendo o cérebro!
Ainda não consegui entender o que seria a conversa de "
Borboleta" e já sou o avatar da decadência "desta geração", a qual, pela idade, já não pertenço.
- Chega! - falo enfim. Já tive conversas com poucas variantes (nunca antes “
Borboleta”, mas ja tive um “
e aquele negócio assim?”) com desfechos idênticos com aquela pessoa para minha paciência, um pavio já usado, estourar rápido. - É impossível conversar com alguém assim! Mesmos e eu soubesse dessa "
Borboleta"!
-
PARDAL.
Infelizmente, devido à impossibilidade do meio escrito de transcorrer com precisão temporal a sequência de falas simultâneas, ficou pouco claro, então explico: No final de "com alguém assim!" fiz uma pausa para respirar. E ele falou simultaneamente "
PARDAL" quando eu retomei a palavra. Não "
Pardal" aquele pássaro, mas um assunto aleatório espontâneo e inconclusivo qualquer omitido para preservar
nomes e eventos...
DISTINTO de “Borboleta”.
- O que? – pergunto confuso.
- OLHAÍ! - urra ele. - Dando ESCÂNDALO e NINGUÉM MAIS está falando de
BORBOLETA! Sempre vestindo a carapuça! Sempre desatento!
Resultado: ataques de Síndrome de Tourett unicamente para demonstrar que eu sou burro - tal qual minha geração - escandaloso, e desatento.