quarta-feira, 31 de março de 2010

Lembranças do futuro

-Lembra, Lawrence... - fala Steve, suspendendo sua ingestão de nutrientes líquidos após alguns momentos de silêncio, ao seu colega. - ... Quando engatinhávamos na robótica... Lá pelo começo do século XXI?

Lawrence olha para seu companheiro com desdém, surpreso com a súbita indagação.

- Lembrar como? - fala ele meio seco, após ingerir mais um gole de seu próprio suco de nutrientes. - Por nossos avós?

- Perdoe-me. - desculpa-se Steve. - Usei o "Lembra" como se fosse uma memória pessoal. Me referia àquela época, que vimos nos holohistoriadores. Foi uma falha de concordância gramatical. Seu idioma ainda não é totalmente dominado por mim.

- Bem, "Lembra quando estudamos nos Holohistoriadores" poderia ser mais adequado. - ajuda Lawrence, em seguida tomando outro gole de seus nutrientes. O tempo de descanço era curto demais para solver tão pouco.

- Certo. - percebe Steve a impaciência de seu colega. - Bem, na época pensávamos que a Inteligência artificial viria do processador eletrônico. Teve aquele escritor antigo "sei-lá-o-quê" Sasimov e suas três leis...

- Isaac Asimov. - corrige Steve.

- Isso. - continua Lawrence, após uma breve pausa para constatar em suas memórias se o nome do escritor estava certo. - Esse é o cara das três leis, não é?

- É uma vergonha você desconhecer Isaac Asimov. - repreende Lawrence. - Foi o primeiro conjunto lógico desenvolvido para a criação de vida artificial de forma segura. E ele não chegou a alcançar o século XXI: Ele era do Século XX e pessoas não viviam mais de 100 anos à época dele.

- Toda a nossa sociedade super-valoriza esse cara! - insiste Steve. - Ele não fazia idéia de como funcionava uma I.A. Tenta explicar para um programa eletrônico o que é existência... Mal... Caramba! Século XX você diz? Nem computador ele deve ter visto!

- Acho que não. Ele era bem do começo do século. A Informática primordial foi do final do século XX se muito não me engano. Já deveria haver computadores, mas em escalas militares apenas.

- Como é que você sabe de tanta coisa? Essa parada tem mais de um século e você nem sequer ativou as Lentes do Saber!

- Antigamente o fluxo de informações era limitado. Precioso. - fala Lawrence com um olhar saudosista. - os primeiros registros humanos eram tesouros. Hoje, por causa das Lentes do Saber, qualquer coisa com mais de 24 horas só podem ser acessadas por holohistoriadores. Conhecimento ficou tão mundano que entram e saem em nossos olhos da mesma forma que a luz, e memória é pouco essencial, já que estamos sempre em evolução.

- Então, você escolheu manter em sua memória essa história de mais de trinta anos por livre escolha?

- Não é bem história. Mas conceitos. Alguns nomes-chaves, a distinção dos séculos pela forma que viam a tecnologia e a informação. Mesmo assim nada além do século XVII. Eu abro mão dos Terarands de lazer por pesquisas de eras antigas, mas ainda não cheguei nos fluxos mais primordiais.

- Século XVII era quando ainda acreditaram em deuses, não sabiam definir gravidade mais profundamente do que "força invisível que atrai coisas para o chão". Eu teria medo de viver num mundo tão prosáico.

- Pois eu acho que eles sabiam viver. - fala Lawrence, checando o horário. - Um pouco de desafio e magia no que gira em torno do universo, desconhecendo a fria realidade que somos um bolsão tridimensional da realidade dentro de um buraco negro. Pensar que seríamos algo mais. A Certeza absoluta é terrivelmente fria. Se eu tiver uma dúvida sobre o que é algum fenômeno, as Lentes do Saber despejam em minha mente instantaneamente tudo o que preciso saber...

- Eu discordo. - fala com prepotência Steve. - Procedemos nossas funções com perfeição. Não teríamos robôs de verdade para o trabalho braçal. Filosofia para mim  não é ciência, e sim um exercício de chutar pontos de vista sem se preocupar com a verdade.

- Então porque ainda existe protocolos de lazer? Leitura? Diversão? Quase tudo fantasia lúdica?

- Eu particularmente substituo tudo por notícias. Algo real.

Enfim o relógio dos dois simultaneamente se ativam. O período de descanço havia acabado. Eles voltam suas atenções para a Lente do Saber e reintegram a Unidade de Mentes Coletivas. Um breve momento para nutrir o corpo no qual eles podem ser indivíduos. Discordar. Decidir se sonham com outra alternativa ou não. A próxima pausa, seria em 50,4 em horas do antigo sistema de tempos e medidas.

Lawrence mal pode esperar. Steve passaria sem elas.

7 comentários:

  1. Essa crônica chegaria a assustar muitos em 1950.

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  2. Eu reparei que não tem 01 reply que receba do Hazzenko que seja encorajador.

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  3. Eu quis mostrar o mundo tendo "dado certo", e dando errado por causa disso.

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